Um dos aspectos mais legais que percebi no Japão, mesmo fora do Dojo sede, é a naturalidade no tratamento, movimentação, aliás, em todo o treinamento em si. A graduação dos estudantes varia nas aulas, mas a maioria tem alta graduação. Talvez seja por este motivo que treinem e se movimentem de forma tão livre e natural, mas talvez não. Nos treinos dos Shitennō (四天王, Quatro Imperadores do Céu, em referência aos quatro guardiões do Budismo Esotérico Japonês) a quebra de forma é evidente. Afinal, excesso de rigidez no movimento e na postura reflete inflexibilidade na mente e postura (interna). Certo, óbvio, não? Não.

Kamaes (構え, posturas ou bases)
Kamaes (構え, posturas ou bases)

Existe uma ênfase muito grande nos movimentos naturais e efetivos. Posições extensas e largas não são comuns em treino, se não for por um motivo exato. Durante uma das aulas com o Shihan Duncan Stewart um americano levantou uma questão sobre isso e obtivemos uma resposta bem esclarecedora. O americano falava sobre as mais famosas posturas (Kamaes) de Budo Taijutsu e, claro, sua desconexão com a realidade (em caso de uso da mesma em todos os contextos). Shihan Duncan nos explicou que ele ainda ensina as posturas tradicionais, mas conscientiza seus alunos em como funcionam.

Então, aprofundou… A tradição não é uma questão de Bujinkan, mas da cultura japonesa. O Japonês ensina a tradição para que as pessoas que estão aprendendo tenham a oportunidade de entender a origem. Não quer dizer que elas usem a técnica como foi usada há muitos anos atrás em qualquer situação, mas que tem um ponto de partida na didática. OK, óbvio, não? Não.

Hatsumi Sensei ao vivo, de fato, parece muito diferente dos vídeos. Muito diferente! Movimentos naturais, extremamente curtos e simples, além de incentivar a uma postura bem simples e acessível à entrada do oponente. Cheguei a ouvir dizer que era por causa da idade. Esta também foi uma tentativa de resposta de outro americano, mas dessa vez a pergunta foi direcionada em uma das aulas do Shihan Rob Renner. Ele explicou que Hatsumi Sensei não faz isso por causa de sua idade. Faz porque é natural e com esse Taijutsu pôde chegar a aquela idade bem e fazer com que as técnicas fossem efetivas independente da idade. Seu aluno Marcus Brock me citou alguns exemplos onde a idade abateu a técnica que era extremamente agressiva e dependente de força muscular na juventude.

Com essa questão respondida, ficou claro para mim, porque em todos os Taikais que participei o Taijutsu dos Shihans são sempre simples, curtos, eficientes e naturais, diferente dos vídeos e livros antigos o que, teoricamente, contradiz uma tradição. Teoricamente porque, na verdade, essa é a tradição. Durante muito tempo em Fortaleza, enquanto treinava o grupo de estudos lá estava alinhado com esse pensamento e, agora, mais do que nunca sinto a conexão.

Algumas posturas são ótimos alongamentos ou exercícios para preparação de partes específicas do corpo e foram feitos para melhorar o corpo e mente (saúde), mas não para combate. Outros foram feitos para escape, também não para combate. Além dos que foram feitos para o uso de antigas armaduras japonesas ou armas específicas e não fazem o menor sentido em combate desarmado. É preciso levar em consideração esses fatores enquanto praticamos as técnicas e também quebramos a forma.

Durante a quebra, pode ser que estejamos partindo de algo que já não faz sentido. Se a base não fizer sentido em combate desarmado ou com determinada arma, pode ser que não faça sentido quando se tornar uma variação da técnica.  Este é um dos pontos para repensar. Vi em aulas do Noguchi Sensei correções em postura “tradicional” durante uso efetivo da técnica, outros exemplos do Shihan Duncan de posturas para preparação do corpo em si e não combate, além de aprimoramento do movimento natural através do método ensinado pelo Shihan Rob Renner que enfatiza e desmistifica os movimentos naturais dando uma melhor compreensão dos movimentos da Hatsumi Sensei.

É impossível dizer claramente o que Hatsumi Sensei ensina. Se eu dissesse que entendo ou entendi completamente, é mentira. Hatsumi Sensei realmente transcende em genialidade. Os próprios Shihans japoneses falam com certa reserva sobre isso. Dessa forma, é consenso geral entre os que moram no Japão e estudam diretamente com Hatsumi Sensei que se alguém diz que sabe ou entendeu exatamente o que Hatsumi Sensei ensinou, provavelmente, está enganado.

Para entender mais sobre essa visão, é possível checar neste artigo (em inglês) um pouco das perspectivas possíveis para entender os treinos de Hatsumi Sensei. Achei genial, senti exatamente essa ideia quando estive lá. Já para mais informações sobre espontaneidade, este artigo (em inglês) também ajuda bastante sobre essa sensação.

聖龍
(Muto Ikkan!)

Pedro Henrique
2013

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