Quem pratica artes marciais japonesas conhece o método Shu (守) Ha (破) Ri (離) de ensino, que vem de outras práticas, como Cerimônia do Chá e o Teatro Noh (uma forma de teatro japonês). Basicamente, este conceito é transmitido da seguinte forma: Shu (proteção, obediência) – transmissão do ensinamento tradicional, Ha (destacar e divagar) – transmissão na forma de quebra do ensinamento tradicional usando os princípios da forma e, por fim, Ri (deixar e separar) – transmissão que transcende a ensinamento tradicional.

Então, o praticante entra em seu Dojo para começar, segue todos os passos do professor, imitando-o em todos os movimentos e sentindo a técnica na intenção de compreender seus aspectos externos (表, omote) e internos (裏, ura). Neste momento, o praticante somente executa os passos do seu professor, pratica a forma em detalhes até que seu corpo e sua mente se adequem ao que lhe é ensinado. Dessa forma, começa a transmissão de uma tradição e parte da proteção da mesma. Sem essa parte a tradição começa a morrer. Durante este passo, as bases do praticante começam a se a formar. O corpo e a mente entram em desconforto total, os primeiros desafios começam a aparecer.

Sobre os aspectos externos, uma dica para o praticante é observar se é capaz de executar a mesma técnica em todas as direções e caminhos (Happo) e mais (Juppo). Outra dica é se questionar sobre alguns pontos cruciais (要, Kaname):

  • É possível executar a mesma técnica em diferentes distâncias?
  • É possível desembainhar, sacar ou lançar armas (durante o estudo da distância)?
  • Sofrendo intensa ação da gravidade. Como essa técnica funciona?
  • Estou trabalhando os membros que estão na frente (braço e perna) e os de trás?
  • Estou praticando as devidas guardas (Totoku Hyoshi no Kamae) no espaço durante a movimentação?
  • Quais são os pontos de contato?
Hatsumi Sensei controlando
Hatsumi Sensei controlando

Dessa forma, vamos abrangendo toda a forma. À medida que o praticante vai compreendendo os aspectos externos, deve caminhar para os aspectos internos para concluir suas práticas em Shu. Os aspectos internos de uma forma (型 kata) dependem da técnica. Uma dica é se questionar:

  • Ok, nós nos sentimos bem no momento, ou seja, treinando. No entanto, se o oponente estiver usando uma faca ou uma arma? Como reajo ou como me sinto?
  • Ao assumir determinada postura externa, ou seja, ao passar uma mensagem visual para o oponente, realmente me sinto de acordo com a mensagem que estou passando? Sinto-me de outra forma?
  • Dependendo das variáveis dentro desse contexto (o qual estou treinando) minha autoconfiança diminui? Descobri que sim. Então, como trabalho nessa situação?

São somente alguns pontos, não se limite nestas questões. Busque mais e mais, vai se aprofundando.

Depois de certo domínio da técnica, ou seja, a forma principal chega-se a Ha. Dessa forma, fica permitido pelo professor o trabalho criativo em cima da forma. Note que até agora não houve criação. Na verdade, o uso desses pontos cruciais é tão somente o trabalho em cima da transmissão tradicional. Em um post que recomendo sobre Shu Ha Ri, Duncan Shihan fala sobre “forma divergente dentro da própria forma”. Acho uma ótima expressão sobre essa ideia.

É consenso geral de que o Budo (o caminho marcial japonês) não é transmissível por palavras. O uso de palavras é apenas uma forma de trazer mais significado às práticas. A prática de quebrar a forma não se refere em fazer o que quiser. Refere-se a usar os pontos principais da técnica para desenvolver seu domínio e encontrar outros domínios onde podemos aprimorar o seu uso. É preciso não desviar dos pontos cruciais da técnica (e acabar por se desviar do ideal de seu criador). Caso contrário, podemos nos desconectar deste ensinamento, a técnica ainda tem a semente do criador da mesma em seu cerne. Durante esse processo descobrem-se infinitas formas de aplicar a técnica e também o que é mais natural para seu corpo e mente. Para este processo não ficam dicas porque depende do praticante e seu professor.

E sobre Ri?

Em minha opinião, Ri é prática para os verdadeiros mestres. Dessa forma, é assunto para outros posts, ou seja, outro momento. Quando eu chegar lá.

O que percebi no Japão, durante o treinamento lá, é que esses passos não são necessariamente percorridos somente ao longo dos anos de treinamento, mas também durante o exato momento em que se recebe a técnica. Durante a prática (exatamente após a transmissão da técnica) os três níveis são observados rapidamente pelos alunos. Acredito que essa prática seja uma das mais fundamentais e fazem a movimentação dos praticantes do dojo central tão perspicazes e livres.

Pedro Henrique
2013

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