Durante o processo de aprendizado de uma arte marcial, nós praticamos diversas movimentações técnicas a fim de entendermos princípios e aplicações práticas da arte em si. Através de uma didática ocorre a transmissão da experiência. Existem várias didáticas, ou seja, várias formas de ensinar. Além de modos específicos de transmitir sensações e experiências, como: Kuden (ensinamento oral), Taiden (ensinamento corporal) e Shinden (transmissão de coração para coração), por exemplo. No caso das artes marciais clássicas japonesas, também existem textos escritos que de diferentes modos registram os ensinamentos que são passados de mestre para discípulo. São Diversos estilos de escrita e desenhos. Alguns Shihan historiadores são fontes apropriadas para a pesquisa sobre estes diferentes estilos de escrita e didática em documentos antigos. Hoje em dia, existem também outras formas, como: Livros e DVDs que Hatsumi Sensei e os Shihan publicam. É maravilhoso ter acesso a todos esses recursos e recomendo a todos.

Não existe forma de vivenciar o Budo sem um professor real, ou seja, não é possível desenvolver-se sem um guia. Escolha sabiamente. A discussão “Professor” x “Mestre” é um assunto acalorado e está totalmente fora do escopo deste post. No entanto, em termos de Bujinkan, existe um consenso geral (também entre os praticantes mais antigos) em que o único mestre é Hatsumi Soke. Inclusive, entre os Shihan, no Japão, existe esse consenso. Os motivos se tornam claros participando de suas aulas e suas obras, lendo seus escritos, vendo seus vídeos, sentindo suas pinturas, percebendo o equilíbrio e maturidade com que lida com os problemas, conhecendo muito de seus alunos, além da benevolência de compartilhar um ensinamento que somente ele mereceu receber em tempos antigos. Enfim, fica muito claro que transmite algo especial de modo único.

Entretanto, essa forma de pensar não me impede de considerar meus guias como mestres ou meus mestres, vai da minha consciência, do meu coração. Vai da sua conexão com seu guia. Claro, com clareza de que existem estágios e estágios. A busca por desenvolvimento e melhora é contínua, pois atinge todos os graus. Mudar de ideia também pode fazer parte do processo de cada um que vem ao dojo. Eu acredito que não nos reconhecemos mestres, pelo menos, não por imposição. Não nos intitulamos. Dentro do estágio que me encontro, ainda soa muito estranho, ver alguém se intitular mestre através de imposição. Durante o caminho é muito importante cuidar de nosso coração e os desejos envolvidos com nossas metas, trabalhar uma atitude mental/cordial apropriada. É importante também entender a diferença entre Meijin (Expert em Artes Marciais) e Tatsujin (Ser Humano Integral), como na conversa entre Takamatsu Soke e Hatsumi Soke. Hatsumi Sensei fala um pouco sobre a atitude apropriada durante o relato da história de Takamatsu Sensei como Jutaro no seu “Essence of Ninjutsu”. Pensei nisso, porque estou em constante reflexão sobre meu caminho e buscando sempre o aprimoramento. Além disso, tudo que vemos, ouvimos, percebemos faz parte de um processo (uma didática) feita especialmente para nós pelo Universo.

Tente manter 初心 (Shoshin), mente de iniciante, enquanto aprende e enquanto observa como os alunos aprendem o que ensinar. Assim é possível sondar melhor os corações. Além de aguçar a percepção.
Tente manter 初心 (Shoshin), mente de iniciante, enquanto aprende e enquanto observa como os alunos aprendem o que ensina. Assim é possível sondar melhor os corações. Além de aguçar a percepção.

Pesquisando minhas anotações sobre a viagem que fiz ano passado, encontrei uma parte bem interessante que não me recordava. Gostaria de compartilhar, pois pode ser útil. Era de uma das aulas que tive com o Duncan Shihan onde disse algo referente as pessoas que quando estão em uma aula, assim que veem a técnica, já querem encontrar “furos” ou “problemas” nas mesmas. É um hábito normal e extremamente sadio para quem está no início da pratica (afinal, vai em busca de eficácia), mas que pode se prolongar e nos direcionar a uma atitude (kamae) inapropriada em termos de mente/coração já quando não somos iniciantes, às vezes, até como professores. Não me recordo exatamente das palavras, mas em relação as minhas anotações, ele nos explicou que normalmente quando alguém se antecipa em dizer que há “furos” na técnica é porque é incapaz de captar o Kaname (“ponto crucial” ou “essência”) do que é transmitido. Isso me intrigou um pouco. Percebi da seguinte forma…

Se você tem certa maturidade marcial, já sabe que não existem técnicas infalíveis ou sem aberturas para um contra-ataque (kaeshi waza), em termos de: tempo, espaço e movimento. Existe sempre uma forma de escapar ou contra-atacar. Se tem um certo tempo de prática, fica claro para você. Mas esta não é a questão. A questão é que quando nossa intenção é encontrar “furos”, não estamos receptivos ao ponto crucial. Não damos abertura para captá-lo, estamos com nosso “Utsuwa” (vaso) cheio. Essa é uma atitude de mente/coração inapropriada para o aprendizado e para o ensino também. Deixamos de considerar a didática. Dependendo da didática, o “furo” pode existir somente porque o professor não está enfatizando o timing correto, mas o encaixe, por exemplo. Outro exemplo: o professor já explicou ao aluno onde pegar para machucar, mas sendo responsável e cuidadoso pede que aluno segure o outro com cuidado (tornando a técnica mais suave) para que ninguém saia lesionado (o que não apareceria em uma gravação ou foto, por exemplo). Sabe quando fazemos devagar para que entenda? Não quer dizer que é feito daquela forma ou que não se sabe fazer, quer dizer apenas que estamos fazendo com cuidado para que não se machuque. É uma questão de didática.

São exemplos simples, mas vamos mais longe. Como professor, pode se deparar com um aluno que se lesionou em um treino anterior ou em uma outra atividade. É importante perceber se o aluno não adaptou a técnica por causa de sua lesão (para que não a piore) ou porque realmente não entendeu o que foi ensinado. Se seu “Utsuwa” está cheio, se sua mente/coração está em condições inapropriadas, se torna incapaz de perceber a realidade como é e as coisas sutis além da forma, como este ponto crucial. Outro exemplo, é quando o aluno naturalmente faz de outra forma, como em um “estalo”, surge algo, apenas naquele determinado momento. Quem pratica durante um tempo sabe do que falo. Às vezes, aumentamos um pouco a velocidade ou mudamos algo e outra técnica surge por causa de mudanças que ocorreram na situação (tempo, espaço e movimento). Destes poucos momentos, saem flashes importantes onde, como professores, também aprendemos com os alunos novos pontos cruciais.

Lembro de uma ênfase muito importante. Como visamos eficácia, em termos marciais, esquecemos que Budo Taijutsu não é sobre ser marcial. É sobre ser humano e o entendimento de nossa natureza. Lembrou-nos, por exemplo, que o Fudo Ken não é marcial. Ele é um movimento que fazemos o tempo todo, para nos levantar, empurrar o carro, ou seja, para inúmeras coisas no nosso cotidiano. Dessa forma, acabei por me lembrar sobre a diferença entre Meijin e Tatsujin no diálogo entre Takamatsu Soke e Hatsumi Soke. Por favor, considere isso em seu treino.

Não dá para “ver” a eficácia da técnica, é preciso sentir. Existem inúmeros truques de cinema para que o golpe fique bonito na câmera.
Não dá para “ver” a eficácia da técnica, é preciso sentir. Existem inúmeros truques de cinema para que o golpe fique bonito na câmera.

Então, como seres humanos, em muitas casos estamos praticando em busca de aprimoramentos no nosso sistema nervoso, também despertando nosso cérebro reptiliano, além de causar aprimoramentos na fáscia. As coisas não são tão simples assim. Não é somente sobre a torção ou controle do oponente. Algumas vezes, é sobre todo seu sistema sensorial. Então, é importante nos tornarmos vazios (esvaziar nosso “Utsuwa”) e nos permitirmos perceber além do que já estamos “inclinados” a buscar. Tomar cada vez mais um atitude mente/coração apropriado.

Normalmente, não encontro este problema ao vivo já que é fácil demonstrar. No entanto, como estou publicando vídeos para público iniciante, é importante frisar alguns pontos. Durante as aulas, como professor e estudante, procuro manter essa atitude mente/coração em estado Shoshin. Acredito que ter uma constância nessa postura, na verdade, não é algo fácil. Sendo sincero, todos nós que praticamos artes marciais de coração trilhamos um caminho de aprimoramento contínuo e desejamos sempre algo mais. No entanto, não é difícil se iludir com a possibilidade de que já encontramos tudo que poderíamos aprender. A linha entre autoconfiança e ilusão é tênue. Não é uma questão de autoconfiança, mas de expansão de consciência e de sermos sinceros conosco, sabermos que sempre temos algo a aprender, independente do grau. Através de todas as experiências podemos aprender algo. Não é o que mantramos no inicio das aulas?

De coração para coração.

武風一貫
(Bufu Ikkan)
(mantenha-se consistente no método)

Pedro Henrique
2014

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