NTakamatsu Sensei Shu Ino Brasil, um dos temas que mais lembram os ninjas dos filmes e seriados é o Kuji In. Era comum ver o ninja entrelaçar dedos, às vezes, recitar algumas palavras e a partir daí provocar algum efeito sobrenatural. Os efeitos eram dos mais variados, desde hipnotismo até a desintegração corpórea. O que era aquilo? Mágica? Espiritualidade? Fantasia à parte, vamos lá…

Por alto, o Kuji In é uma prática meditativa antiga de origem Hindu que passou pela China até chegar ao Japão. Em cada território e época sofreu mudanças até se tornar o que é hoje. Estima-se que chegou no Japão no período Heian (平安時代 Heian Jidai) e pode ser encontrada no Budismo, Xintoísmo e o Shugendo, embora também tenha sido praticada por Taoístas na China. Mas o que é o Kuji In?

Embora o Kuji In, esteja associado atualmente as práticas espirituais, não pertence a um sistema religioso em si. Nessa prática, além do entrelaçar de dedos (específico de cada técnica), considera-se o uso da mente através da concentração e visualização (mandara), vocalização de determinadas expressões (shingon) e gestos específicos (shu in) com a mão. Na verdade, todo o corpo. Outro ponto importante da prática é a respiração.

Como conhecido atualmente é uma das práticas dos ensinamentos esotéricos do budismo (Mikkyō) em contrapartida aos aspectos exotéricos (Kengyō) do mesmo. O Kuji In visa inúmeros benefícios tendo como base ampliar e desenvolver a consciência, além de conectar-nos com possiblidades que não nos damos conta normalmente.

Cada Postura tem uma Atitude Interna. Foto de Takamatsu Sensei em uma atitude.

Esta prática não está só, faz parte de um conjunto de outras práticas que corroboram a transformação interna que em muitos casos leva e perdura por anos. Não se trata do entrelaçar dos dedos e apenas pronunciar algumas palavras. Como aprender? Talvez o mais indicado para vivenciar melhor essas práticas seja o apoio de alguém que recebeu a transmissão destes ensinamentos em alguma das doutrinas citadas. A leitura de livros é recomendada, mas não é suficiente para vivenciar dizem alguns monges.

Os ninjas são conhecidos pela inovação em combate e tática. Durante os vários períodos do Japão, os ninjas assimilaram técnicas de diversas fontes distintas, entre elas, práticas espirituais. Outro exemplo, as famosas shuriken (estrelas de arremesso) são muito comuns em filmes de ninja, mas existem antes dos mesmos, e em determinada época, assimilaram em seu treinamento. O mesmo ocorreu com o Kuji In. Ainda assim, esta prática não foi exclusiva dos ninjas e monges, mas também de samurais, e hoje de inúmeras pessoas no Japão e ao redor do mundo.

Cada uma dessas práticas visa desenvolver aspectos, como: coragem, conexão com o todo, libertação de preconceitos ou percepção limitada da realidade, harmonia interna, libertação de pensamentos e atitudes limitantes e a própria busca de reforço espiritual. Além de outros benefícios rápidos, como: concentração, coordenação de movimentos, resistência física e reações positivas em relação aos acontecimentos. Cada conjunto de práticas tem seus aspectos especiais.

Cada postura, uma atitude.
Cada postura, uma atitude.

Ao longo dos anos de prática, o ninja desenvolveu um espirito forte e determinado, adaptável as circunstâncias. Lançava mãos de todas as suas ferramentas em sobrevivência. Assim, o Kuji In, poderia ser usado em situações críticas ou mesmo apenas para ludibriar um oponente mais supersticioso. No Budo Taijutsu é diferente.

Em “The Grandmaster’s Book of Ninja Training”, Hatsumi Sensei comenta sobre este tema. Muitos anos atrás, vários alunos perguntavam ao Soke sobre este tipo de prática, se aprenderiam ao longo do treinamento etc. Muitos de nós tem curiosidades sobre o assunto. Hatsumi Sensei costuma citar frases religiosas e muitas delas budistas. Além de também ser ordenado em doutrinas budistas. Então?

É fácil encontrar nos escritos da Hatsumi Sensei várias análises numerológicas de ideogramas e expressões japonesas, além de estudos sobre formas, etimologia e fonemas. Ele comenta sobre essa forma de ver os números em “Hitsumon Bujinden” (“sabedoria necessária para a aventura”). No livro, após uma explicação sobre o número 9, Hatsumi Sensei enfatiza a importância do Taijutsu e informa que há um Kuji no Taijutsu, mas que não é possível aprendê-lo sem um bom Taijutsu antes. Também compara um pouco dos “milagres” de Kuji com os “milagres” do Cristianismo. O que, pelo tom, me levou a pensar de forma que todas as culturas/espiritualidades, de certa forma, tem seus “Kuji”. Um dos alunos pergunta se é necessário aprender os mudras (shu in) para entender Kuji e o Soke responde que não.

Ainda no mesmo livro, Hatsumi Sensei conta que alguns aspectos do Taijutsu são impossíveis de ensinar. De alguma forma, somos nós que descobrimos esses ensinamentos, o mesmo ocorre com o Kuji. Acredito que em todos assuntos espirituais, existe uma cortina entre o que entendemos e o que não entendemos, mas sentimos. Tenho a impressão de que pessoas religiosas, de alguma forma, vivem essa visão de “Kuji” e as outras práticas de Hatsumi Sensei a sua maneira de acordo com sua cultura. A forma de pensar nas análises que faz dos ideogramas e números são também encontradas em outras culturas, por exemplo. No “Essence of Ninjutsu“ é possível encontrar relatos sobre essas práticas na história de Jutaro. Quando um peregrino ajudo-o a se curar usando práticas semelhantes ao Kuji In.

Hatsumi Sensei e Estudantes Japoneses: Shu In
Hatsumi Sensei e Estudantes Japoneses: Shu In

Neste fascinante mundo do desconhecido, fica para nós a possibilidade de novos aprendizados e sensações difíceis de descrever em palavras, mas que alteram totalmente nossa forma de pensar e agir, e assim, tudo a nossa volta. O constante treinamento do Budo Taijutsu nos abre portas para a descoberta interior em níveis cada vez mais profundos.

Outra prática relacionada ao Kuji In é o Kuji Kiri:

 

武風一貫
(Bufu Ikkan)
(mantenha-se consistente no método)

Pedro Henrique
Bujinkan Shidoshi

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