O que publico é direcionado aos meus alunos e buyus interessados. Obviamente, não há nenhuma obrigação em concordar com a importância que dou a determinados assuntos se não é o seu foco no momento. Normalmente, antes de repassar um material, verifico a procedência e explico o motivo pelo o qual acredito que seja útil para o aprendizado de cada um (quando o material é complexo) o que também pode não concordar dependendo do seu foco.

Dessa forma, sempre que sei explico de onde vem e quem é o instrutor que publicou, por exemplo. É uma forma fácil de verificar que não é um material tirado de seriados de tv ou ficções de cinema, outras artes marciais, enfim, algo que não se relacione com o que é exposto, pelo menos, na medida mínima do necessário.

Além disso, imagine que o autor provavelmente teve algum trabalho para desenvolver aquilo. Então é honesto dizer a fonte e incentivar novos desenvolvimentos. Quando ficamos com a informação, e intencionalmente escondemos a fonte, por exemplo, funciona como esconder dos seus alunos que haverá um seminário (fonte), ir e depois dar um seminário com o conteúdo que aprendeu escondendo a fonte. Com respeito as dificuldades econômicas de cada um, e eu tenho muitas, não é lá muito honesto. Então, tento sempre que possível citar fontes. Mas não estou aqui para julgar ninguém. Vamos ao que interessa… Por favor, se não souber inglês, faça um esforço para traduzir, ao menos no Google Translator (translate.google.com).

Vi uma compilação de aulas do historiador Dr. Kacem Zoughari bem conhecido na Bujinkan que acredito que é importante compartilhar com meus alunos e buyus interessados. Kacem, além de ser tradutor do Soke (inclusive nas aulas), é historiador por profissão (especializado em história japonesa e parece que foi financiado para tal). Muitos dos argumentos que usa batem com os argumentos que Soke propaga em seus livros, além de coincidir com outros de quem treina no Japão constantemente (os que moram lá). O seu material tem uma coisa muito especial, algo que gosto muito. Além de tê-lo visto pelo Japão trabalhando. Deixe-me explicar…

Existe muita confusão sobre a cultura japonesa no entendimento do Budo Taijutsu no mundo e está mudando drasticamente. A informação começa a chegar em todos os lugares e estamos aprendendo muito. Mais ainda sobre o que se refere ao Ninjutsu. Sendo claro, dou um exemplo, a forma de pensar propagada no filme Black Belt (lançado em 2007), por exemplo, não tem a ver com o Ninjutsu. O filme é espetacular, assisti e recomendo! Mas a forma de pensar, agir e o contexto é pós-Meiji. Não tem nada com a forma de ver o mundo do Ninja. Arrisco até a afirmar que é possível que seja diametralmente oposta a visão do ninja.

Embora pareça algo simples, não é. Em oportunidades futuras teremos como trabalhar a forma técnica neste sentido. A forma de pensar, entender a técnica, pode mudar por causa do entendimento do contexto histórico e mudar o feeling da coisa toda. Estive conversando com um dos meus alunos que também esteve na França sobre a importância de entender o contexto histórico e a influência disso na nossa consciência na hora de treinar. Já havia pensado nisso quando fui me corrigir no Japão, mas ainda pudemos refletir mais sobre na França durante o seminário do Arnaud Cousegue (Bujinkan Dai Shihan).

Refinando nosso entendimento do Ten Chi Jin Ryaku no Maki na França
Refinando nosso entendimento do Ten Chi Jin Ryaku no Maki na França

Sem falar nas dificuldades do idioma. Se seria muito difícil para eu acompanhar o seminário em detalhes (realmente perder detalhes importantes), pois foi ditado em Francês contendo vários detalhes históricos (ainda bem que tinha um tradutor só para mim!), imagine no Japão, perder tantos detalhes do que é falado por falta de tradução do Japonês. Pode imaginar?

Na maioria das aulas que participei no Japão tinha tradução simultânea para inglês em 2013, foi ótimo. No entanto, na última aula que fui encontrei um Shihan brasileiro que fala Japonês. Durante a aula do Soke, inúmeras vezes o mesmo me corrigiu falando sobre certos detalhes do que o Soke tinha acabado de falar e foi bem fácil, pois traduziu diretamente para o português. Onde eu “via” ombro, ele me mostrava que era o cotovelo (pela fala do Soke), por exemplo. Podia ter perdido detalhes importantes.

Não estou falando que é impossível entender algo nas aulas sem a língua. Mas…

1) Entender o POR QUÊ fizeram isso ou aquilo no passado etc.

2) Entender PARA QUÊ serviu cada coisa.

3) Entender COMO FAZER por detalhes falados, em alguns casos.

Tem suas vantagens. Faz diferença. Na didática de Hatsumi Sensei é possível perceber que ele fala bastante. Digo, tanto em aula, como em vídeos. Imagine se não tivéssemos traduções no vídeos, por exemplo. Quanto perderíamos?

Além de fomentar a prática, é importante fomentar o estudo
Além de fomentar a prática, é importante fomentar o estudo

Gostaria de compartilhar a importância desse entendimento. Podemos desenvolver um nível ou trabalhar para um nível acima entendendo melhor o contexto. Estudem/pratiquem com carinho. Por exemplo, pode girar o bastão (Bo Furi Gata) da forma mais linda que quiser, em uma velocidade incrível, uma habilidade espetacular, mas se não perceber que assim que o bastão encostar em algo, vai mudar sua trajetória e VOCÊ ESTÁ NO MEIO DELA, não vai entender para quê aquilo realmente serve.

Existe também uma confusão sobre o Ninja e o Samurai, além da forma de se vestir nos filmes. A conduta, a forma de encarar as coisas, os preceitos etc. São completamente diferentes. Não dá mais para entender a diferença de forma superficial. Afeta, praticamente, todas as técnicas que executamos. Não é uma questão filosófica. É uma questão de como ensina ao seu corpo as técnicas.

Claro, vamos dentro das nossas condições, passo-a-passo. Baby steps, mas com a consciência de o que pudermos melhorar, vamos melhorando. Não dá para melhorar tudo de uma vez. Com paciência, mas refletindo e tentando melhorar o que dá. Com foco em desenvolver-se. O resto o tempo traz.

Além de fomentar a prática, é importante fomentar o estudo
Além de fomentar a prática, é importante fomentar o estudo

“Isso é o que o budo é: reconhecer suas próprias capacidades e suas próprias fraquezas, por mais forte que você seja. Algumas pessoas sabem disso, mesmo quando não tem formação no budo.” 
Masaaki Hatsumi Soke
(The Grandmaster’s Book of Ninja Training)

武風一貫
(Bufu Ikkan)
(mantenha-se consistente no método)

Pedro Henrique
Bujinkan Shidoshi

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