JR Train Noda-Shi. 2013. Foto: Pedro Henrique.
JR Train Noda-Shi (Japão). Foto: Pedro Henrique.

“Não existe caminho, viva!”
Masaaki Hatsumi Soke

Estou em um período da minha vida em que Universo tem me permitido viver inúmeras experiências distintas e aprender muitas coisas novas, além de visitar diferentes dojos, conhecer instrutores e mestres pelo mundo. Uma experiência fantástica! Há tanta coisa para apreciar no mundo! Não falo de Budo Taijutsu somente, mas de tudo mesmo. Surge aquele sentimento de gratidão por tudo! Espontâneo e que me preenche. É incrível o que a vida e o mundo nos oferece, e sendo honesto, ainda é muito pouco o que fiz para retribuir. Durmo, às vezes, com a sensação de que ainda falta tanto para retribuir esses presentes do Universo. Tanto… Não poderia deixar de expressar minha gratidão a Deus, e ao Universo, a família e a todos envolvidos por tudo que proporcionam e as pessoas que estou próximo.

Lidar com tantas novidades me remete a “Espírito/Mente de Principiante”. Quando se tem a oportunidade de visitar buyus ou recebe-los, acredito que seja muito importante estar aberto (a), receptivo (a) a aprendizado e troca. Medo de se confundir ou necessidade de ser reconhecido como um bom praticante pode tencionar e prejudicar a transmissão de experiência que está um pouco além da sua consciência do momento. Embora professor, me considero um estudante. Acredito que seja importante essa visão, afinal o termo “Shidoshi” é escrito de forma não usual na Bujinkan e possui significado distinto.

 “No ‘Espírito/Mente do Principiante’ não há pensamento ‘eu alcancei tal coisa’. Todos os pensamentos autocentrados limitam nossa vasta mente. Quando não temos ideia de alcance, sem pensamentos autocentrados, somos verdadeiros principiantes. Então, nós podemos realmente aprender alguma coisa. A mente do principiante é a mente de compaixão. Quando nossa mente é compassiva, está sem limites.”.
Shunryu Suzuki

Em termos de Budo Taijutsu, para absorver o máximo de experiência da linhagem, é importante estar aberto (a) ao aprendizado. Diz-se “experiência” exatamente porque não se tratar apenas de conhecimento. Uma arte marcial com séculos de história, totalmente baseada na investigação continua de leis naturais e sua relação com a natureza humana, carrega em si muito da experiência prática. Tem vida! O conhecimento pode ser adquirido por várias formas, como: aulas, livros, vídeos, DVDs, filmes, bate-papo, enfim, inúmeras formas. No entanto, em termos marciais, conhecimento apenas não tem vida. Conhecimento é fundamental sempre, mas se for baseado em prática e tornar-se usual. Caso contrário, é apenas erudição mal dirigida.

Existem diversas formas de transmitir uma experiência. Por exemplo, quando apreciamos uma obra, como um quadro de um artista, sentimos inúmeras sensações. Essa é uma forma de um pintor transmitir uma experiência. No entanto, o quanto estamos abertos para perceber a mensagem do autor e conexões com outras obras/mensagens, além de outras ideias, depende apenas de nós. Quando praticamos, todo este conjunto (universo, natureza, mente, corpo, técnica e armas) nos transmite inúmeras sensações e experiências pessoais. Nos permite uma enorme descoberta.

Astrobiologia na ponta de nossas mãos.

No desenvolvimento a prática é exigida. Ademais, o coração tem de estar apto à receber os ensinamentos. Nossa mente, tem de estar aberta para aprender novos conceitos, novas formas, sentir novos sentimentos e vivenciar uma nova cultura. Independente do nosso entendimento atual e nossas antigas experiências. A experiência em uma linhagem é transmitida por um rigoroso processo de conexão entre, pelo menos, duas pessoas. Neste Budō esse processo é chamado de “Shinden” (Transmissão de Coração para Coração) e pode ocorrer de várias formas.

A postura que assumimos diante de um acontecimento determina nossa percepção. Não é o contrário. Eu sei que parece estranho. Cada postura marcial é, na verdade, uma postura interna. Uma forma de encarar a vida e seus desafios. “Shōshin no Kamae” é a “Postura do Iniciante”, postura do “Espírito/Mente de Principiante”. Esta postura é a primeira que aprendemos e passamos a cultivar por longo, e talvez, infinito tempo. Durante inúmeras práticas a utilizamos como padrão. Não somente na forma que assumimos com o corpo, mas na verdade, em nossas atitudes, coração e mente. Esteja aberto para receber a transmissão, mesmo quando não utiliza a postura corporal.

Quando “impomos” um entendimento baseado em antigas experiências e desejos pessoais, mesmo entendimento pessoal ou suposição, perdemos uma excelente oportunidade de enxergar um mesmo assunto por outra perspectiva, por outro ângulo, e descobrir mais sobre o mesmo. Tudo é simplesmente como é, disse um mestre Budista. Independentemente do que acreditamos ou como pensamos atualmente, as coisas são como são na essência e, de certa forma, tem suas múltiplas interpretações dada as próprias características humanas fundamentais. No entanto, não importa se aceitamos ou não, também não importa se impomos que seja de nossa forma. Tudo simplesmente é como é.

Na constante prática deste Budō, é importante “olhar para dentro” e verificar bloqueios e deficiências. Sempre. É o que fazemos em treino e ter uma postura sempre aberta nos facilita. Quais são seus medos? Quais são seus desejos? O que lhe tira a paz? O que quer mudar? Tem medo da violência ou lidar diretamente com ela? Antes de lidar com essas questões é importante estar aberto para as respostas. Aceitar o que pode descobrir.

“Nossa imagem no espelho não é real.”
Masaaki Hatsumi Soke

Sim, aceitar. Não quer dizer “aceitar que devam ser assim” ou “aceitar que está correto ou errado”, apenas aceitar que existem. Antes de mudar é preciso aceitar as coisas como são. Estar aberto para identificar sem julgar e lidar diretamente com o problema. Por si mesma, esta postura também exige um sacrifício de personalidade, preconceitos e julgamento precipitado ou baseado apenas em experiências pessoais. Somente depois desse entendimento podemos pensar em mudança e desenvolvimento. Esteja aberto (a) a encontrar seus próprios problemas, assumir a responsabilidade sobre eles. Este Budō o (a) levará a esta questão.

Bushinwa Wo Motteto Toshito Nasu. 武心 和を以て尊(貴)しとなす
“O Coração Marcial detém a Harmonia Sagrada” expressão do Densho de Gyokko Ryu. Pintura: Hatsumi Sensei.

武風一貫
(Bufu Ikkan)
(mantenha-se consistente no método)

Pedro Henrique
2015

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