Kuki to Kuma
Kuki to Kuma

Desde Novembro passado, Hatsumi Sensei vem jogando com o conceito de Ishitobashi (石飛ばし), “jogo de pedras”. (1) Este “Ishitobashi” é a sua maneira de descrever a interação entre Uke (a água e a natureza) e Tori (a pedra e a raça humana) no encontro.

Todos jogamos aquele jogo quando éramos mais jovens, tentando ter uma pedra pulando a maior quantidade possível em um corpo de água. (2) (3) (4)

Budō não é diferente.

Quando estuda a física do Ishitobashi, sabe que para ter sucesso, precisa de cinco condições:

  1. uma pedra plana, não muito grande e bem equilibrada
  2. um corpo de água tranquilo, sem ondulações
  3. força suficiente para lançar em giro
  4. nenhum vento
  5. um ângulo e distância perfeita para voar sobre a água sem a pedra afundar de primeira

Quando está consciente dessas cinco condições e incorpora-as no instante, seu lançamento de pedras é bom. Se não atender a um desses elementos, sua pedra vai afundar irremediavelmente.

Fazendo um paralelo com a nosso Budō, encontramos os seis elementos do Rokudai japonês (六大):

A pedra é Chi (地).

A água é Sui (水).

A potência de jogar é Ka (火).

O vento é Fū (風).

O ângulo e distância são Ku (空).

E o Saino (才能), a capacidade de aproveitar a situação como um todo sem pensar é Shiki (識).

Quando Uke ataca devemos ser como o jogo da pedra, saltando naturalmente na superfície de suas intenções e ações. É por isso que não há pensamento envolvido no processo. Ishitobashi é semelhante ao Chuto Hanpa (中途), o famoso conceito de técnicas “meio-cozidas” que Sensei vem explicando nas aulas há alguns anos. (5) (6).

Porque o nosso objetivo não é fazer uma técnica, mas adaptar-se a tudo o Uke está trazendo a nós, somos livres para mover-nos e superar as intenções do Uke.

De uma forma mais filosófica, esta capacidade de adaptação está perto do conceito de “não tentar”. Esta ideia pode ir contra suas crenças internas, mas tem sido estudada há séculos na Ásia. O conceito taoísta chinês de Wuwei (無爲) de “não fazer” ou “fazer sem esforço”. Isso é o que Sensei está pedindo para fazer (ou não fazer). (7)

Para aqueles que estão interessados em colocar este Wuwei em suas vidas diárias, aconselho a ler o livro “Trying not to try” by Edward Slingerland. O livro começa com Wuwei, criatividade e acima de tudo com espontaneidade. (8) (9)

Slingerland diz que: “Nosso foco excessivo no mundo moderno sobre o poder do pensamento consciente e os benefícios da força de vontade e autocontrole nos faz negligenciar a importância penetrante do que poderia ser chamado de ‘pensamento corporal’: tácito, rápido e semiautomático, comportamento que flui a partir do inconsciente com pouca ou nenhuma interferência consciente. O resultado é que nós também, muitas vezes, nos dedicamos a forçar mais firme ou se mover mais rápido em áreas de nossas vidas, onde o esforço e empenho são, de fato, profundamente contraproducentes”. (10)

O “pensamento corporal” que ele descreve é o que Hatsumi Sensei ensina. Nós conseguimos movimento natural quando podemos “pensar” com o corpo. Nossos movimentos são espontâneas e como a pedra quicando na água, nossas ações estão sempre em sintonia com a situação.

Sensei é um artista, o que significa que a criatividade é sua máxima, se queremos tornar-se verdadeiros artistas marciais, então temos de ser mais criativos e espontâneos. Esta criatividade está ecoando o que ele nos disse na sexta-feira à noite. “Não aprenda as técnicas, deixe seu corpo fazer o que é necessário, sem intenção, se você tenta fazer uma técnica em uma luta será legível e vai morrer.”

Ishitobashi é Musō Ken (無想剣).

PS: 15º Dan, não se esqueçam de trazer um “ishi” (石, “pedra”) gravada, ao “Bashu” (馬主), o “proprietário do cavalo”. (11)

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  1. 石飛ばし Jogo de pedra na água (sobre um corpo de água)
  2. http://en.wikipedia.org/wiki/Stone_skipping
  3. http://www.loc.gov/rr/scitech/mysteries/stoneskip.html
  4. https://www.grc.nasa.gov/www/k-12/airplane/wrong2.html
  5. 中途 Chuto: no meio ou a meio caminho de….
  6. 半端 Hanpa: remanescente, fragmento; conjunto incompleto; fração; soma impar; incompletude.
  7. http://en.wikipedia.org/wiki/Wu_wei
  8. http://www.goodreads.com/book/show/18050134-trying-not-to-try
  9. Um grande obrigado a Phillip Mayr de Bujinkan Salzburg para aconselhar-me a ler este livro.
  10. Trecho de http://www.brainpickings.org/2014/04/21/trying-not-to-try-slingerland
  11. No jardim do Sensei com Kuki e Tobi, seus dois cavalos que irão manter olhos em sua pedra. 😉

 

Título Original: Ishitobashi
Autor: Arnaud Cousergue (Shiro Kuma´s Blog)
Fonte: https://kumafr.wordpress.com/2015/05/26/ishitobashi

Thank you for share with us Arnaud Cousergue!
Traduzido por: Pedro Henrique

* Este trabalho de tradução visa auxiliar praticantes que entendem a língua portuguesa. Também visa ajudar na difusão dos princípios fundamentais do Budō Taijutsu ensinado pelo Soke e os entendimentos dos instrutores em todo mundo. Como regra geral, tento sempre que possível aproximar ao máximo do original escrito, superando assim, as barreiras da tradução. Antes de efetuar o trabalho, os autores são consultados para obtermos a devida autorização. Por ser um trabalho humano, pode conter falhas de tradução. Dessa forma, se encontrar alguma, por favor, nos encaminhe pelos comentários. As opiniões expressas pelos autores são de sua inteira responsabilidade.

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* El objetivo de la traducción de este post es para ayudar a los artistas marciales que entienden el portugués de Brasil. También tiene como objetivo ayudar en la difusión de los principios básicos impartidos por Soke del Budo Taijutsu con el apoyo de los instructores de la Bujinkan en todo el mundo. Como regla general, intento siempre que sea posible a la aproximación a la escritura original, superando así las barreras de la traducción. Antes de realizar el trabajo, los autores son consultados para obtener su permiso. Naturalmente, puede contener errores. Por lo tanto, si usted encuentra alguna, por favor, comente con nosotros abajo. Las opiniones expresadas por los autores son de su exclusiva responsabilidad.

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