Antigo Dōjō Central da Bujinkan
Antigo Dōjō Central da Bujinkan

O que é um Dōjō?

O Dōjō é mais do que um local de treino. Ele é um templo para os praticantes de artes marciais sérios. Não é atoa que são cuidados com muito carinho pelos professores e praticantes. Tenho viajado constantemente nos últimos 6 anos, conhecendo muitos locais de treino no Brasil e no Mundo, diversas comunidades também. É sempre uma uma experiência maravilhosa! Em cada cada comunidade encontramos muito carinho, senso de comunidade e cuidado com o local de treino e a própria comunidade. Afinal, é nossa segunda casa.

No caso do Bujinkan Dōjō, muitas vezes confundimos “Dōjō” (道場, “local de treino” ou “local de iluminação” em Português) com “Shibu” (支部, “ramo” ou “galho” em Português, no sentido de subdivisão). Em Bujinkan existe somente um Dōjō que é o Bujinkan Dōjō. As outras denominações como Banpen Fugyou Bujinkan Dōjō, por exemplo, são “Shibu” (ramos, subdivisões ou extensões) do único dōjō existente na Bujinkan. Então, porque usar denominações? Por que representam comunidades.

Comunidade. Somos Um só.
Comunidade: somos Um só.

Por que “Comunidade”?

Na verdade, no Dōjō nós vivenciamos muitas das experiências da vida. Nós não aprendemos somente a nossa arte marcial, sua técnica e seu método. A arte marcial em si, é uma filosofia de vida. Quando praticamos, nós trabalhamos em toda nossa vida pela consciência que tomamos durante o processo de aprendizado de artes marciais. Nesse processo, mudanças ocorrem no corpo, mente e muito além de ambos. Lá nós encontramos amigos que vão ficar para a vida toda, pessoas que criaram laços fraternos que durarão muito. Também romperemos laços que não gostaríamos de romper, pelos mesmos motivos de laços que se rompem em nossa vida pessoal. Como uma família mesmo, como a família que já tem.

Vi casais que se formaram lá dentro, casais que se formaram antes e estão lá. Alguns duraram muito, outros pouco. Vi também grandes amizades que duraram mais do que a prática marcial, outras que duraram junto com a prática. Amizades que também, por motivos importantes acabaram. Muitas diferentes perspectivas. Pessoas que entraram com um propósito e continuaram pelo mesmo propósito por anos, outras que se mantiveram por propósitos diferentes. Coisas diferentes que fazem parte de um mesmo todo. Se pode respeitar as diferentes perspectivas sabe que tudo isso está conectado de uma forma formando um todo.

Todas as pessoas que estão lá, fazem parte de um todo. Uma comunidade. Uma ideologia, um conjunto de concepções, visões diferentes apontadas para um mesmo propósito. Diferentes em detalhes, mas que apontam para um mesmo norte. Essa unidade é o que fortalece a comunidade. O engajamento de todos os membros, o entendimento desse funcionamento como família. Com suas virtudes e vícios. Com as coisas boas e problemas. Uma família, exatamente como a que tem.

Daí a palavra Dōjō assume outro significado. Começa-se a entender que o que viabiliza essa comunidade é a unidade, é o entendimento de que todos são peças fundamentais para algo maior que beneficia a todos. Conheci comunidades de idades diferentes, bem distintas. Ideais também diferentes. O que é o natural e extremamente importante. Também pude perceber o quão importante é dar prioridade a sua comunidade para poder mantê-la viva e em constante evolução, pois é através da sua comunidade que consegue viver essas experiências de modo mais estreito e intenso.

Quando a sua prioridade é uma comunidade distante da sua, torna a sua comunidade mais fraca e mais incapaz de dar a você e aos locais a possibilidade de continuar e evoluir. Na verdade, mais do que isso até. Multiplica o esforço base para ter o mínimo, para o seu desenvolvimento e dos demais próximos. Entender este ponto é importante. Como todos nós vivemos diretamente ligados a uma sociedade e nos encaixamos no sistema que a rege, precisamos dos requisitos necessários não só para a sobrevivência, mas para a evolução continua. Todos nós precisamos de coisas básicas para viver e se queremos ir além, precisamos de mais.

Por favor, não generalize ou tome de forma radical. Não tire minhas palavras do contexto. Para todas elas existe um contexto. Se você as tirar, é óbvio que podem se tornar radicais ou extremas, depende apenas do que está dentro de você. Quando falamos em prioridade, falamos que há, no mínimo, uma lista. Colocar a sua comunidade como uma de suas prioridades mais importantes, não significa descartar outras. Alguns tomaram essa ideia de forma tão radical que criaram verdadeiros “times” de futebol do budō, onde a questão não é fortalecer a comunidade local, é simplesmente tornar impossível a convivência dos membros de sua comunidade com outras. Típico pensamento de torcedores de futebol fanáticos, entende?

Então, em casos como estes, os líderes (normalmente instrutores) procuram desenvolver aquela consciência de demonização das outras comunidades (e instrutores), a todo custo, em sua comunidade. Pela minha experiência, que não é muita (mas inclui a constantes visitas e aprendizados como aluno/estudante), é difícil precisar as origens desse pensamento porque depende de vários fatores. Isso é humano, não tem a ver somente com o budō. Em alguns momentos é uma questão de tradição, já vem de algum outro líder mais antigo e estão copiando sem questionar ou refletir sobre. Em outros, o instrutor está passando por problemas financeiros sérios se desespera e encontra esse meio de fidelizar (sim, é um termo comercial usado, até porque a ideia neste caso é comercial mesmo). Vi casos também, em que a necessidade de reconhecimento social sobrepôs qualquer outro parâmetro (até mesmo a aquisição de recursos financeiros), então, valia a pena usar esse método para saciar a necessidade da mente de reconhecimento social gerando adoradores. Enfim, varia muito e não devemos julgar. Entretanto, faz-se necessário mencionar aqui porque é importante distanciar este pensamento da ideia principal do post.

Dessa forma, “prioridade” neste post significa apenas colocar a sua comunidade como prioridade importante nos esforços que faz para que ela não só sobreviva, viva bem e evolua sempre, mas também, se é o desejo do seu coração e tem essa possibilidade, também fortalecer outras comunidades. Pensando assim, consegue crescer, ajudar a sua comunidade a crescer também e, se tem ainda possibilidade, ajudar as outras comunidades fortalecendo-as também. Em uma esfera maior, todas as comunidades se fortalecendo, quem ganha mesmo é a Bujinkan, ou seja, o mundo. Enfim, todos nós. O que somente é possível se: começar localmente e tiver como ingrediente principal…

Nós precisamos de nossos buyu e nossos buyu de nós.
Nós precisamos de nossos buyu e nossos buyu de nós.

Senso de Comunidade

Se na sua cabeça você é único que deve ou “merece” crescer (acredite, eu já vi isso) ou o único jeito que se sente preenchido é crescendo sozinho, um dōjō não é para você. O dōjō é o resultado de um esforço em conjunto. Local de iluminação nas artes marciais e artes marciais funcionam como relacionamentos conjugais, por exemplo. Você não tem como namorar consigo mesmo, mesmo que haja simulações de 10% disso. Você também não tem como praticar somente consigo mesmo ou na mente. Praticar sozinho (a) é importante, aliás fundamental, mas a prática com pelo menos mais um praticante é mandatório para começar. Não tem como praticar artes marciais e a filosofia por trás da mesma sozinho (a).

O Senso de Comunidade é um potencializador de força já bastante conhecido, porque não é algo que existe somente no budō. Na verdade, existe e sempre existiu nos diversos tipos de comunidade. Quando a gente pensa “nós” ao contrário de “eu”, a gente não só potencializa nosso crescimento, na verdade potencializamos exponencialmente o nosso crescimento pelos demais (o mesmo ocorre com os demais). Essa é a sacada que a maioria dos egoístas não conseguem fixar. Exige um nível a mais de consciência. No entanto, é preciso entender que esse senso só é possível se for um fluxo de duas vias: eu penso “nós” e você também pensa “nós”, a comunidade pensa “nós”. Vi muitos líderes pregando “nós”, mas a atitude encaixava mais no “eu”. Este é um ponto importante. É nossa responsabilidade detectar quando acontece.

Cultivar o senso de comunidade, podendo realmente colher os frutos desse senso, desse cuidado com o outro, é importante. Sua comunidade depende disso, independente de qual for. Esse não é um processo mecânico ou uma técnica. É algo que vivemos. Como Senpai se nos engajarmos na missão de melhorarmos a nós mesmos, fizermos algo a mais pelo dōjō e pelos Kohai, podemos fortalecer nossa comunidade. Como Kohai se nos engajarmos na missão de melhorarmos a nós mesmos e também fizermos algo a mais pelo dōjō, por mais simples que seja, podemos fortalecer nossa comunidade. Existem inúmeras formas de ajudar. Embora seja comum no Japão, não é comum no ocidente, daí a importância de frisar.

Em conjunto dá para fazer coisas fantásticas!
Em conjunto dá para fazer coisas fantásticas!

Engajamento na Missão

Sua comunidade, seu Dōjō e seu Professor precisam de você. Existem inúmeras formas de ajudar e muitas delas tem mais a ver até mesmo com seu talento. Às vezes, são pequenas coisas. Mas o mais importante é a proatividade e a liderança em atrair a responsabilidade para si, buscar uma forma de melhorar e ajudar na sua comunidade. Pergunte ao professor, sugira, assuma tarefas efetivamente.

Se preparando para a missão

Alguns exemplos:

  1. Os Dōjō são feitos pelos praticantes, por toda comunidade. É nossa casa, nossos buyu nossa família. Resolução de problemas burocráticos, doações de recursos e materiais, limpeza, voluntariado na manutenção, são exemplos.
  2. Divulgação e participação na sua comunidade, como também seus eventos é outro exemplo.
  3. Recursos financeiros: se sua comunidade vive dentro da sociedade é fato de que ela precisa de recursos financeiros, seja para a compra de materiais, a divulgação de seus trabalhos, seja para o desenvolvimento dos professores, entre outros, mais um exemplo.
  4. Senso de missão, quando assumir uma atividade vá até o fim nela e seja eficiente.

Não se esqueça que também é muito importante pegar o feedback, saber o resultado disso. Se pensa como “nós”, se dedica, se esforça, está sempre compartilhando e fazendo de tudo para melhorar para os demais, mas percebe que está trabalhando duro para uma comunidade que pensa como “eu”, bem… Eu sei que é chato dizer, mas está na hora de refletir sobre o que você quer para o futuro.

武風一貫
(Bufu Ikkan)
(mantenha-se consistente no método)

Pedro Henrique
2015

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