“Enquanto estava no Estados Unidos ano passado, uma coisa que poderia ser dita é que em todas as pessoas, nos três seminários que ditei lá, não tinha um Kihon Happō satisfatório. Já que todos estavam copiando o Kihon Happō dos outros, a execução estava muito superficial. Eles estavam muito longe de poder aplicar na prática em um combate real. Portanto, no futuro, pelo menos 50% do treino deve ser dedicado a aperfeiçoar o Kihon Happō. Os movimentos são simples, mas devem estar tão integrados até que se tornem inconscientes, como reflexos mesmo.

Se o Kihon Happō for aperfeiçoado, 70% de qualquer técnica pode ser executada repetindo meramente a sequência de movimentos.”

Fumio Manaka Shihan, 9º Dan
excerto do “Tetsuzan: Bujinkan Densho” Livro de Hatsumi Sensei

Kihon Happo por Takamatsu Soke

Hoje em mais um divertido treino praticamos o Kihon Happō em Coimbra. Sendo o mesmo a base do Budō / Budō no Kiso (“Fundamento do caminho marcial japonês”), é de suma importância praticá-lo. Mas como podemos pratica-lo? O fato é que toda vez que estamos treinando qualquer técnica em Budō Taijutsu estamos treinando alguma parte do Kihon Happō. Se parar um minuto para pensar em qualquer técnica que fizer, vai perceber que ela tem ligação lógica com a mecânica do Kihon Happō. Então, podemos treinar a forma principal para ter uma ideia, mas sempre estamos treinando Kihon Happō. Por esse motivo treinamos outras coisas também hoje.

基本八法型 Kihon Happō Gata – oito formas fundamentais

骨指基本三法 Kosshi Kihon Sanpō – três métodos fundamentais de golpeio

  • 一文字の構 Ichimonji no Kamae – postura/forma em linha
  • 飛鳥の構 Hichō no Kamae – postura do pássaro em vôo
  • 十文字の構 Jūmonji no Kamae – postura/forma cruzada

捕手基本型五法 Torite Kihon Gata Gohō – cinco métodos de captura das mãos/braços

  • 一 表小手逆 Ichi Omote Kote Gyaku – um: torção externa do pulso
  • 二表逆拳捌 Ni Omote Gyaku Ken Sabaki – dois: torção externa de pulso controlando ataque
  • 三 裏小手逆 San Ura Kote Gyaku – três: torção interna de pulso
  • 四 武者捕 Yon Musha Dori – quatro: captura do guerreiro
  • 五 巌石投 Go Ganseki Nage – cinco: projeção de rocha

Sempre que treinamos Rokushakubō 六尺棒 (“bastão longo”) também treinamos Kihon Happō. Hatsumi Sensei já falou em seu Daikomyosai sobre Gyokko Ryu Bojutsu que ensina, pelo menos, nove formas diferentes de se movimentar com esta arma. Independente da forma que o maneja, consegue ver a mecânica do Kihon Happō aplicada? Suso Otoshi tem inúmeras possibilidades. Arnaud Dai Shihan em uma gravação explica que se trata de alçar a calça ou hakama ou a calça. Dentro do possível, obviamente. Nós também praticamos e variamos em cima desta técnica.

稽古捌型 Keiko Sabaki Gata – Formas de Decisões/Solução de Problemas/Movimentação Práticas

  • 裾落 Suso Otoshi – queda pela bainha da calça/hakama
  • 裏裾落 Ura Suso Otoshi – (interna) queda pela bainha da calça/hakama

É claro que não é somente sobre a mera repetição da mecânica de uma técnica em cima de outra. Dependendo do que você quer alcançar, o que sua criatividade sugere para se proteger em uma dada situação, detalhes nessa mecânica são diferentes das formas principais e se distanciam bastante da mesma, embora mantenham um cerne (Kaname / Gokui). Como no caso do Hajutsu Kyūhō em relação ao Kihon Happō. O nome por trás das técnicas pode dar pistas sobre estes detalhes. Hatsumi Sensei já publicou em seu livro que vale a pena buscar entender. Não é obrigatório, afinal o que é importante em arte marcial é a sobrevivência, mas pode nos dar uma luz para novos entendimentos.

破術九法 Hajutsu Kyūhō – nove métodos de derrota

  • 手解 Te Hodoki – escape de mão
  • 親殺 Oya Goroshi – matar o pai/rei
  • 子殺 Ko Goroshi – matar o filho/príncipe
  • 変化砕 Henka Kudaki – variações de destruidores

Por fim, nas últimas semanas a gente tem falado sobre Kaname. Como também é um assunto que permeia todas as técnicas, é um assunto fascinante. O treinamento do Budō Taijutsu acontece em uma série de níveis. Existem pontos que são puramente mecânicos, pontos marciais em si, outros referentes as emoções e subconsciente. Do nosso treinamento, o que fica para um confronto real é o que já é automático. São técnicas sim, simplesmente porque o que aplica tem um certo refinamento, mas perdem a caraterística de forma porque não é estruturado se for usado como reflexo. Assim, a forma principal desaparece, fica o que absorveu em termos técnicos. Seu corpo sabe disso, embora você não lembre conscientemente. Se seus atos reflexos fossem gravados, rapidamente veríamos técnica e ligaríamos os pontos. O que fica são os Kaname.

Esse é o tipo de coisa que tem de receber pela transmissão de um professor (dentre muitas outras). Com toda certeza não dá para aprender por vídeo/texto. São coisas que não são possíveis de perceber por vídeo e tirar conclusões. Também não por texto. Vale a pena investir nisso. Sei que é, para nós, muitas vezes, caro investir em ter aulas com um professor que recebeu esses ensinamentos, mas definitivamente, vale muito a pena se quiser aprender Budō Taijutsu. Por esse motivo tenho investido no aprendizado desses pontos. Nós treinamos alguns deles, mas existem muitos outros.

要 Kaname – Principal / Cerne / Eixo

  • 間合いの要 Maai no Kaname – pedra angular da distância / cerne da distância
  • 余裕 Yoyū – margem / gota d’água
  • 動きの要 Ugoki no Kaname – pedra angular do movimento / cerne do movimento
  • 要 Kaname – pivoteio / giro em torno de um eixo
  • 刀匿礮姿 / 礮 Tōtoku Hyōshi no Kamae – guarda

Esses Kaname são totalmente dependentes de contexto, aliás toda técnica o é. Aprender este tipo de coisa por vídeo pode ser desastroso. Por exemplo, uma vez vi a medida de distância sendo baseada no “encostar das mãos”. Como assim? Imagine que os dois praticantes fazem Ichimonji no Kamae, um em frente ao outro, e encostam a ponta dos dedos. Essa não é a distância correta para as formas. Medida de distância não é feita assim. Quando nós encostamos os dedos (e, na verdade, qualquer arma) significa que já estamos na distância errada (no contexto de quem quer se defender). Porque quando encostamos no oponente antes mesmo de começar a praticar a forma, ele já tem as informações de distância necessárias para fazer algo (a maioria das técnicas de Budō Taijutsu privilegiam o tato ao invés da visão, porque nosso corpo sabe como tomar uma série de decisões que não dependem do nosso consciente para se defender). O corpo dele já sabe e não precisa nem mesmo da visão para atacar. Já reparou que todo Shihan antigo e o Soke ensina olhando para a plateia e não para o Uke enquanto se move?

Outro exemplo, é a famigerada “movimentação correta”. Movimentação está sempre atrelada ao contexto (o que quer fazer, qual o propósito etc). Tento, ao máximo, evitar usar essa expressão. Esse termo “correta” é muito dependente disso. Dentro do que estudei e pratiquei até hoje, e tenho rodado o mundo para receber essa transmissão (não somente nos seminários, mas dentro do dojo dos professores), o termo “movimentação correta” está sempre atrelado a um contexto e um porquê das coisas. Não existe fórmula genérica.

Se tentar generalizar e criar um padrão “único” e “universal”, bala de prata que mata vampiros e lobisomens, fica só na imaginação. Nada mais. Os riscos e análises de confrontos reais no Rio de janeiro podem ajudar a entender que não existe “bala de prata” capaz de resolver todos os problemas genericamente. Até agora esse padrão não foi encontrado. Principalmente, por causa da natureza humana e segurança/defesa pessoal que estão em evolução constante.

Uma vez, me falaram que a movimentação “correta” era o uso indiscriminado de movimentação de porta (usar o corpo humano para caminhar de forma circular, como uma porta que abre e fecha indiscriminadamente). Consegue imaginar quão antinatural é para o corpo humano movimentar-se em qualquer situação como porta? Não digo que não exista momentos para tal, sempre há. Mas o uso indiscriminado?

Quão desconectado do taijutsu do Soke isto é? Não tem outra forma de aprender taijutsu se não for através de instrutores que realmente recebem transmissão, visam a transmissão de alguém que a recebe, se esforçam por tal e que investem nisso. Não é só sobre ir aos seminários, é importante realmente receber transmissões de dojo ou transmissões pessoais do (s) professor (es). Então, conclusões pessoais baseadas somente em vídeos e textos podem ser desastrosas. Vídeos e textos são usados apenas para nos lembrar de algo que já recebemos e temos que melhorar, são anotações…

Te esperamos, cá em Coimbra. 🙂

Ah! E uma vídeo super inspirador sobre os nossos básicos (….

武風一貫
(Bufu Ikkan)
(mantenha-se consistente no método)

Pedro Henrique
2016

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