No Kihon no Kihon, básico do básico, nós também treinamos a coordenação dos movimentos e a consciência corporal.  Durante as praticas desse tema, trabalhamos focando em maior parte nas articulações através de movimentos (também lateralidade em alguns deles). Com o propósito de conseguirmos mover apenas determinadas partes do corpo em específico, por exemplo: dedos, pulso, cotovelo, ombros, tórax, olhos, língua, cintura, quadris/ancas, tornozelo etc.

Ao longo do treinamento, obtemos percepção e uma coordenação mais assertiva, melhorando nossa destreza, algo que antes não conseguimos coordenar sem esforço extra de outras áreas do corpo. Essa consciência corporal provê ao praticante uma enorme capacidade de se acomodar e/ou assimilar ataques, torções e arremessos de maneira mais segura, evitando lesões mais sérias, bem como proporciona a oportunidade de aplicar um Kaeshi (“contra-ataque” ou “resposta”) de maneira mais eficiente, aproveitando a força do próprio oponente contra o mesmo.

Após aprimorarmos, vamos ao Ken Tai Ichi Jō (“Arma e Corpo como um Só” em Japonês). Este é um tema interessante porque tem várias interpretações, mas é comum ver interpretações, como: mover o corpo inteiro exatamente ao mesmo momento. Toda vez que estou aprendendo algum conceito em treino, sempre observo o corpo do professor, é importante. Quando o corpo começa a se mover naturalmente, digo, sem esforço consciente, a gente se move com o que realmente já foi integrado.

Em alguns momentos ainda não integramos o movimento, o que absolutamente normal, mas em outros, a mente nos enganou (o que é absolutamente normal, a mente mente bastante, pois é extremamente depende dos nossos desejos). Dessa forma, acredito que seja interessante observar. No Ken Tai Ichi Jō, nem sempre o seu corpo se move ao mesmo tempo por completo, aliás, na maioria das vezes não. Existem partes que se movem antes e outras que vão em paralelo depois do controle ser transferido. Então, penso que esse exercício do Kihon no Kihon para coordenação seja extremamente útil também nisso.

Mas o Ken Tai Ichi Jō tem um outro ponto interessante. Bem interessante e que faz inúmeras “mágicas” do Budō Taijutsu. O fato de conseguir executar certas aplicações técnicas movendo partes do corpo que não estão diretamente ligadas ao corpo do oponente, mas que movem outras suas que estão, é bem interessante. Deixa o Taijutsu meio invisível para quem observa. Por exemplo, se suas mãos estão tocando o oponente, em certo encaixe, e você move suas pernas, em alguns casos move o oponente dando a aparência de que fez algo com as mãos. Essas “mágicas” estão ligadas ao footwork também (movimentação de pernas) que é outro conceito e ao setup (como tudo estava preparado antes) da técnica.

Não é necessário pensar nisso, pelo menos não para executar. Apenas quando treina, pode fazer algumas experiências, sentir. Afinal, quem está aprendendo é seu sistema nervoso e o subconsciente. É, por isso, que normalmente falo por aqui “experimenta” ao invés de “treine” ou “pratique”. Seu corpo está experimentando tudo. Há outros benefícios nessa ligação Arma e Corpo como uma coisa só, como, por exemplo, a economia de esforço extra, mas a gente fala disso quando for falar de ângulos.

Tudo isso é só teoria se não treina e experimenta. É como comentar sobre futebol sem estar no campo ou falar de sexo sem fazê-lo. Essas e outras maravilhosas experiências, só no tatame. Nos vemos lá. 🙂

武風一貫
(mantenha-se consistente no método)

Pedro Henrique
2016

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