Não. Se não vai virar um colecionador de técnica e colecionadores tem boa memória, mas pouca inteligência (adaptabilidade) o que é fundamental se precisar das técnicas em termos marciais. Normalmente, precisamos mais nas relações e é necessária adaptabilidade nisso.  A verdade é que, a maioria dos instrutores que encontrei no mundo, nem se quer lembram as técnicas. Está no corpo deles, se você precisa perguntar sobre uma técnica a eles, simplesmente eles perguntam ao próprio corpo, são experiência/prática pura.

Os que apenas memorizaram, até agora do que vi, aplicaram em contexto errado (a técnica não faz sentido naquele contexto: pode não servir ou simplesmente lhe colocar em perigo). O apenas memorizar tem outros interessantes perigos, mas que fazem parte do caminho e experiência e acho que todos nós já caímos em alguns deles.

O primeiro deles é: você sabia que pode reconhecer facilmente um colecionador de técnicas? É fácil. Ele (a) tem a sensação de que sabe tudo sobre aquilo. Sim, exato, ele (a) alcançou o fim de um caminho que não tem fim. Nem mesmo os Dai Shihan Japoneses que dão aulas a todos no mundo se dizem ter alcançado o fim deste caminho, mas os colecionadores já alcançaram.

O segundo é: colecionadores de técnicas, normalmente, aprenderam/aprendem ou por vídeo ou seminários SOMENTE. Sim, normalmente, um colecionador de técnica não treina com professores (as) ou se treina é somente em seminários específicos, não tem nenhum tipo de ligação, não tem como tirar dúvidas, nem checar se “pegou” a ideia. Ele tira a conclusão e tchau. Eles tiram a “foto” do momento (fixam o momento como uma verdade absoluta atemporal).
a) Por exemplo, no seminário o (a) professor (a) ensinou da forma “A” uma certa técnica. Como o colecionador não treina constantemente com o professor (a) em questão (ou vai ao menos atrás do professor (a) para entender depois), deduz que aquela é a ÚNICA forma de fazer e que o (a) mesmo (a) professor (a) em questão não faz de forma diferente em outros contextos.

b) Ele (a) assiste a UM vídeo de um professor (a) e esquece que existem OUTROS vídeos do mesmo professor (a). Ele tira uma “foto” daquele momento e “engessa” a técnica. Ele (a) lê UM livro de um professor (a) e esquece que existem OUTROS livros do mesmo professor (a).

c) Normalmente, quem memorizou técnica, não percebe que existem milhares de pessoas indo ao Japão e que suas experiências ocorreram em momentos diferentes com Hatsumi Sensei e os Dai Shihan. Então, esses momentos diferentes geraram experiências diferentes e ensinamentos diferentes (contextos diferentes).

Rodando por aí pelo mundo e treinando com professores, mesmo em ocasiões que não são seminários específicos, vi que existem muitas pessoas brilhantes em todo o mundo. Cada qual tem sua forma de ver as técnicas e os padrões. É fantástico poder ver o quão criativo e efetivo pode ser para aprendizado e situações reais. Isso não significa que não há pontos cruciais nas técnicas e princípios que estão em todos (você vai encontrar semelhanças sim no entendimento das pessoas de diferentes localidades), mas há um toque especial.

Não adianta memorizar aquilo que muda constantemente. As ameaças mudam de acordo com o tempo, o ser humano se adapta. Na verdade, o Ten Chi Jin tem poucas técnicas e seria fácil de memorizar, se ele tivesse sido projetado apenas para memorizar. Como se treina é que faz a diferença (para o contexto que se está buscando, o que depende do seu objetivo). Dependendo do que estiver buscando: saúde, exercitar-se, defesa pessoal, enfim, o programa e o jeito de treinar muda, por assim dizer.

Existem pontos cruciais que irá encontrar em uma quantidade grande de professores (semelhanças), mas muita coisa é específica sim (diferentes momentos e experiências com Hatsumi Sensei e os Dai Shihan). O dia que este toque especial acabar, Budō Taijutsu não é mais Budō Taijutsu.

頑張ってください

(Gambate kudasai!)
(por favor, dê o máximo de si!)
Pedro Henrique

2016

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